22 Janeiro 2008

Cada um Vive Como Quer

Onde foi parar toda uma geração que pregava a liberdade acima de tudo? Onde estão essas pessoas que pertenceram ao grande movimento setentista da “contracultura” americana? A resposta, muito fácil: estão atrás de mesas de escritórios trabalhando para multinacionais e passando o dia inteiro de terno e gravata para chegar em casa e beber o seu whisky escutando Chris Montez..



Claro, fiz uma generalização, tomando alguns casos que conheço como exemplo, porém esse questionamento é bastante válido nos dias de hoje, onde somos cobrados e taxados de “parados”, que não saímos da frente da nossa tela de computador e não fazemos nada para “melhorar o mundo”. Olhamos para trás e enxergamos que essas pessoas “revolucionárias” se tornaram tudo aquilo que não queriam, ou que pregavam o fim.

Dois filmes imediatamente me vem a cabeça quando entro nesse assunto, “Edukators”, onde os três amigos vão até a casa de magnatas e pixam “Seus dias de plenitude estão acabados”, em ações contra o sistema. Tudo se complica quando seqüestram um desses moradores, levando – o para uma cabana no campo. Nesse contexto descobrem que esse homem antes era assim como eles, um ativista político nos anos 60/70, para depois, nos 80 transformar-se num yuppie.

E o segundo, e foco deste texto, é “Cada Um Vive Como Quer”. Um típico trabalho dos anos da contracultura americana, dirigida pelo independente Bob Rafelson e com atuação (considero sua mais perfeita até hoje) de Jack Nicholson. Nesse trabalho ele interpreta Robert Dupea, um homem que à principio trabalha como operário de campo de petróleo em uma cidadezinha pequena, onde o único divertimento é ir ao boliche. Ele namora Rayette uma loira burra (uma interpretação magnífica de Karen Black) e só tem um casal de amigos.

Tudo normal até aí, o problema surge quando ele recebe a notícia que seu pai está muito doente. Aí sim, conhecemos o verdadeiro Robert Dupea, um homem extremamente culto, excelente pianista – que poderia ter seguido carreira de sucesso – e rico, pertencente a uma típica família burguesa americana, onde todos são “estudados”. Por que ele abandona isso? Inserindo o filme no seu contexto a resposta fica clara: crise existencial. Robert Dupea quer se ver o mais longe possível desse tipo de vida, onde tudo está sempre na mais perfeita ordem (um dos lemas da cena da contra cultura amaericana), onde todos debatem Freud e psicologismos na sala após o jantar (o que fica evidente em uma cena chave para entendermos o comportamento dele), onde se escuta música clássica para mostrar superioridade intelectual.

Enfim, o personagem de Jack Nicholson reencontra tudo aquilo que repudia. Entendemos então o porque de seu comportamento, entendemos o porque de sua fuga para uma pequena cidade, um trabalho pouco compensador e até o porque de se sujeitar (é bem esse o termo, sem ser preconceituoso) a namorar uma mulher tão burra como Rayette. Ele quer se var o mais distante possível daquela realidade burguesa que o enquadra, que o faz ficar preso em um estereotipo de intelectual. Dentro da cena americana da época esse era o ponto central, se afastar desses modelos burgueses de classe média, e com isso o filme de Rafelson tornou-se um símbolo da época, pois justamente coloca um personagem “livre”, ou que pelo menos conquista e vai atrás de sua “liberdade”, enfim, mostra um HERÓI!.

Hoje com certeza o filme não possui nem um terço de seu impacto, perdeu força com o tempo e pode ser encarado de outra forma. Se na época o seu final (ele abandonando a namorada em um posto de gasolina e pegando um caminhão para qualquer lugar) podia ser otimista, hoje esse mesmo final pode parecer bastante pessimista. Afinal, encararíamos seu personagem como um homem imaturo que precisa crescer e que cedo ou tarde vai ter que virar gente, ou seja, aderir ao sistema!

Será que Robert Dupea transformou-se naquilo que repudiava? E será que temos alguma força para simplesmente largar tudo e “viver como queremos” no atual sistema?

Baseado no texto de Caroel Eastman.

Cotação:

Cada um Vive Como Quer (Five Easy Pieces, 1970) Direção: Bob Rafelson Elenco: Jack Nicholson, Karen Black, Billy Green Bush, Fannie Flag, Lois Smith.

17 comentários:

cafe pequeno disse...

DEIXEI 3 POSTS ESCRITOS POIS ESTAREI VIAJANDO ATÉ O dia 04/02. DÊEM UMA OLHADA NOS OUTRO SE SOBRAR TEMPO.
ABRAÇOS!

Museu do Cinema disse...

Vi esse filme há muito tempo atrás, quando estava numa viagem a filmografia de Jack.

Gostei dos paralelos.

Kamila disse...

Não assisti ao filme principal de sua resenha, mas conferi "Edukators" e é um filme bem legal.

Felipe Nobrega disse...

Museu, é um filme para se reassistir de tempos em tempos, pois parece que mesmo tendo um discurso modificado dependendo do contexto, não envelhece.

Kamila, Edukators é bacana sim, mas acho que não passa muito disso.

falow!

Debora Hegedus disse...

Que coincidência... Cada um vive como quer é maravilhoso! É contra todo o discurso americano capitalista e ao mesmo a favor da tal falada Liberdade... Fiquei feliz pela coincidencia!

bjo!

Felipe Nobrega disse...

Debora, acho que ele é um pouco além do contra o capitalismo, acho que ele é mais focado no modo de vida que esse sistema cria - mais focado nas relações humanas a partir desses sistema. falow!

Andros Renatus disse...

Fiquei bem interessado nos dois filmes. "Cada um vive..." eu não conhecia, "Edukators" já me recomendaram mas nunca disseram porquê, por isso eu nunca tinha dado atenção...

Gustavo H.R. disse...

Não assisti aos filmes em questão, mas pelo que já vi a respeito do assunto, olhando para trás, percebe-se que a história tende a se repetir. No final, torna-se exatamente aquilo que repelia.
Até George Lucas é um exemplo, ele mesmo admite...

Cumps.

Rodrigo Fernandes disse...

è excelente o Edukators... principalmente com esse peso de que o cara que sequestraram um dia poderam ser um dos sequestradores...
Mutio bom seu post.. ficava fazendo essa mesma pergunta, de onde estavam os tais caras pintadas em épocas de tantas crises e escandalos que estamos vivenciando atualmente...
Não assisti a esse do Jack Nicholson, mas depois do seu comentário já está na minha lista.. mancada tu ter contado o final, mas beleza...ahahah
abraços

Alex Gonçalves disse...

Felipe, nota-se que essas constantes parcerias do passado entre o ator Jack Nicholson e o diretor Bob Rafelson renderam bastante frutos no cinema. Mas, de acordo com a questão levantada no fim do texto que deve estar patente em “Cada Um Vive Como Quer”, talvez o tema não deve ter envelhecido tanto assim, pois são poucos, ou talvez ninguém, que vive como quer.

Alex Gonçalves disse...

Ah, excelente viagem!

Pedro Henrique disse...

Desculpe minha ignorância, mas não tinha nem conhecimento da existência desse filme. Agora que conheci aqui no Café Pequeno, devo dar uma conferida.

Abraço e volta a plublicar logo!!

Pedro Henrique disse...

Ops...publicar!!!

Jacinta disse...

Com certeza olharei os outros posts. Seu café pequeno está hiper grande de informações valiosíssimas.
E, hoje, vive-se assim, cada um como quer e outros como podem.
E, caramba! você aborda bem o assunto. Os ideais de ontem???
Ah, alguém quer relembrá-los?
Então, muito menos vivê-los.
E a vida segue...

Felipe Nobrega disse...

adros, acho Edukators um pouco inferior que Cada um Vive com quer, mas é uma boa pedida...

Gustavo, não entendi bem seu exemplo de George Lucas??

Rodrigo, foi mal ter contado o final... rsrsrs mas acho que ficaria meio perdido o texto se não o colocasse...

Pedro confere e ... já VOLTEI!

jaconta, dá uma conferida geral por aqui que farei o mesmo la no seu blog - olhei algumas coisas, acabei não vendo tudo.

abraços

Alex Souza disse...

Cara, você não pensou em avisar que essa porra tem spoiler? Contar o final do filme é foda. Arg!

Gustavo Serrate disse...

Amigo, gostei do seu texto, só uma coisa no final que não.
Você diz que "hoje em dia" o filme perdeu seu impacto, porque a visão que teriamos do filme é diferente.

Amigo, assisti esse filme há pouco tempo e senti a força do filme, não só isso, achei o final totalmente otimista.

O filme não mudou, está lá, do mesmo jeito de antes. Sem conservadorismos que se acumulam sobre os nossos anos. Quem mudou, foi você.