18 Janeiro 2008

Fahrenheit 451

Não há dúvidas que vivemos em uma sociedade da informação, uma sociedade onde a comunicação se dá pelas mais diferentes formas e meios, onde as notícias demoram segundos para se alastrar pelo mundo. Se isso é bom ou não é algo a se debater, agora o que temos de pensar em primeiro lugar é: “que tipo de informação é essa?”. Viver em uma sociedade da informação pode ser excepcional, mas ao mesmo tempo aterrorizante, pois estamos sujeitos a qualquer tipo de informação, a modismos constantes, a nunca refletirmos com densidade qualquer assunto – pois tudo é descartável e amanhã novas “informações” vão surgir e logo as de hoje são ultrapassadas. Esta forma de informação é a que sustenta a famigerada cultura de massa , onde tudo é descartável.
O que seria a informação genuína? A de relevância? Quem tem um trabalho muito interessante sobre práticas de leitura (e conseqüentemente de informação) é Roger Chartier, que sustenta a idéia de que, ao contrário do que se diz publicamente, as pessoas estão lendo muito mais. Estão se informando de maneira nunca antes vista. Essa sua teoria diz que as práticas de leitura se modificaram, do livro passamos para a Internet, onde “lemos” o mundo. Com isso ele acredita que a leitura não morreu como tantos dizem por aí.

Chartier tem um ponto de vista interessante – e diria até correto no meu ver – porém ele não se aprofunda muito na questão: “que tipo de informação?”. Ele está mais preocupado em nossas reações frente a leitura. E aí está o mais brilhante de sua teoria: como nos portamos quando estamos com um livro na mão e como nos portamos quando lemos na frente de uma tela (que não passa de uma imagem cheia de letras, pois em primeira instância o que fazemos é ler uma imagem e não um texto).

Estar com um livro em mãos nos dá uma sensação de poder (Foucault, Bordieu, entre outros autores sustentam isso). Em última instância um livro faz que nos tornemos algo diferente daquilo que começou a leitura. Enfim, um livro tem o poder de transformar. Mas todas essas divagações me surgiram depois de ver “Fahrenheit 451” de François Truffaut. O filme debate justamente isso, o poder de transformação que um livro causa numa sociedade.
Em um futuro aterradoramente próximo os seres humanos não podem mais ler qualquer tipo de obra literária, pois isso causaria transtornos a uma sociedade que almeja a perfeição. Quem se arrisca a ler o faz de modo clandestino, e se pego os livros são queimados por bombeiros (que só possuem essa função, já que as casas possuem “anti-incêndios). O dilema surge justamente quando um dos bombeiros começa a ler essas obras e vai experimentando sensações nunca antes vividas. É como se ele passasse a ser “mais humano”, a ter sentimentos, a pensar criticamente a questionar o que está em sua volta. Em determinado momento ele descobre um grupo de dissidentes que para nunca se ver sem obras clássicas da literatura passa a decorá-las – cada um tem a obrigação de memorizar um livro inteiro, para dessa forma a obra “nunca morrer” para os homens.

O filme em si é um Truffaut diferente, longe de suas problemáticas habituais. Trata-se de uma obra pesada, fria, até impessoal – por opção para visivelmente contribuir com o clima de “não sentimento” dos personagens. Mas em vários momentos conseguimos vislumbrar a “mão” do diretor, que se delicia com as referências literárias, cada livro que aparece trata-se de uma obra que o próprio diretor tem apreço; assim como vemos que a condução do filme é inspirada em Hitchcock, de quem ele é fã declarado.

Traz milhares de reflexões à respeito dessa sociedade da informação, a importância da literatura na vida dos homens, suas complexidades... Mas acima de tudo nos dá uma esperança de que, enquanto houver seres humanos a literatura e suas obras mais clássicas sempre nos acompanharão. Afinal, nenhuma tecnologia, seja ela a mais avançada conseguiu nos dar o prazer de... virar a página.

Cotação:

Com história baseada no livro de Ray Bradbury.
Fahreinheit 451 (idem, 1966) Direção: François Truffaut Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring, Jeremy Spencer.

18 comentários:

Diário de Dois Cinéfilos disse...

Esse filme sempre me atraiu muito, mas nunca tive a oportunidade de ver. Me lembro dele mais porque eu fui em uma palestra de cinema (faz um ano mais ou menos) e eles citaram como um dos melhores filmes.
Quando achar na locadora alugarei!

Abraço!

cafe pequeno disse...

Aluga que vale,e muito!! talvez não esteja entre os "melhores filmes" em uma seleção própria, mas com certeza ocupa um lugar previlegiado na minha lista!

Otavio Almeida disse...

Maravilhoso! Que filme extraordinário! Parabéns por colocá-lo como tema de discussão aqui. Quem gosta de cinema precisa ver esse Truffaut magnífico.

Abs!

Wally disse...

Fiquei muuuuito intrigado. Agora voce me deixou curioso, hehe, parabéns!

Jacinta disse...

Olá,
passo aqui pela primeira vez e já estou gostando. Tem cheiro de café esse seu espaço. Muito bom
Pois é, também fiquei curiosa
Um abraço
Jacinta

Felipe Nobrega disse...

Otávio, o filme gera inumras discussões, e por vezes o considero (enquanto o texto de Ray Bradbury) mais impactante que Orwel e 1984. Como se Orwel fosse mais fatalista, e Ray trabalha com algo possível de acontecer (pelo menos de maneira mais próxima...).

Wally, que bom fico contente, para mim essa é a melhor sensação... ficar curioso.

Jacinta, valeu pela primeira visita, já vou retribui-la.

abraços

Rodrigo Digao disse...

Acho que esse é o Truffaut que menos, ainda mais depois de ler o livro, que é bem melhor.

Criativo seu sistema de cotações, hehe.

Kamila disse...

Comprei esse filme numa daquelas promoções das Americanas, em que ele estava por 13 reais, e não me arrependi.

Acho que a grande mensagem desse filme é justamente essa vontade de combater a homogeneização da sociedade, defender os livros e o conhecimento como grande saída para sermos melhores pessoas.

Adorei o novo layout do blog!

Bom final de semana!

Felipe Nobrega disse...

Rodrigo, acho que comparado a outros realmente é um Truffaut mais fraco, porém considero que a discussão acaba transcendendo o filme e por isso ele se faz relevante. Acho que é o filme mais polêmico do diretor francês.

Kamila, também comprei nas Americanas... heehhaha estava bem escondido no fundo de um balaio de promoções...e esse seu ponto de vista também é discutido, isso que dá gosto no filme, vários olhares são possíveis. Value pela parte que me toca... 2008, tava afim de um novo layout para o blog!

abraços

Andros Renatus disse...

Muito bom! A cena da senhora queimando entre os seus livros é demais! E finalmente esse filme foi lançado por aqui... Eu fiquei anos com uma cópia pirata nas mãos (primeiro em VHS, depois em DVD), ripada do canal Telecine (às vezes, de madrugada, a Globo também passava), que circulava de mão em mão, bem subversivamente... Esse filme não tinha lançamento oficial nem em VHS! Por isso, é incrivel ele poder ser achado agora nas lojas americanas por 13 paus...

Felipe Nobrega disse...

não sabia que já tinha passado na globo, mas ver dublado é fogo... e 13,00 é bem barato, tri acessível, o bacana é que é um tipo de filme que cmprei tb pois é ótimo para passar em sala de aul...
abraço

Kamila disse...

Felipe, que bom, então, que muita gente anda comprando o DVD na Americanas. :-)

Alex Gonçalves disse...

Felipe, tenho a impressão de que vi “Fahreinheit 451” em alguma locadora próxima, mas não imaginava do que se tratava. Lendo o seu texto, fiquei interessado nesta proposta que o filme oferece. Já anotei para, em breve, fazer uma busca.

Excelente semana.

Debora Hegedus disse...

urru! q delicia achar cinefilo como vc! vou começar a fuçar atrás dos filmes q vc indicou e ainda não assisti!
beijão e vou te adicionar tb ;)

Gustavo H.R. disse...

Esses são questionamentos profundos a respeito de um assunto que merece ser debatido. Esse foi um dos mais reflexivos comentários a respeito do tema de um filme que já vi na blogosfera.
De minha parte, irei comprar o DVD de FAHRENHEIT e ler a obra original - nessa ordem!

Cumps.

cafe pequeno disse...

Kamila, e viva o 'balaio" de preços baixos!

Alex, corre atrás!

Debora, valeu a visita e obrigado pelo elogio.

Gustavo, sabe que o texto que escrevi fluiu de primeira, pois justamente ando lendo bastante essesautores que citei (para o trabalho monográfico) e via o filme pensando neles imediatmente. O Chartier então não saia da minha cabeça... martelava...

Cine Oba! disse...

Felipe!!
esse é um dos mais respitados filmes na minha opinião! Tive a oportunidade de escrever um pouco sobre ele lá no blog : http://cineoba.blogspot.com/

[quero que você leia e questione alguma coisa - estamos aqui pra isso --- aprender e compartilhar hehe]

é um obra atemporal... gera discussões imensas como está levantado por você e sabiamente dialogada com o historiador Chartier...
pela abordagem...palmas para o mestre Truffaut..

abraços
cineoba.blogspot.com

Gina disse...

Assisti ao filme pelo You Tube, em partes, mas ávida por ver mais e mais.
A cena da bibliotecária queimando entre seus livros é absolutamente fantástica. Fiquei sem fôlego ao vê-la suando e sorrindo.
A música incidental é absurdamente envolvente, intensa, forte.
Realmente, hoje vemos a informação ser liofilizada e a quantidade de informações que recebemos é muito grande, fica impossível assimilar tudo, estamos num turbilhão de letras e cenas.
Mas que tipo de informação nos chega? É de utilidade ? Descartável em sua grande maioria.
O que dizer dos bons clássicos, das estórias e histórias que tiveram e tem sentido sempre.
Qual a mensagem de cada livro, de cada estória, de cada história, de cada experiência ? Acumulamos sabedoria e treinamos nosso vocabulário e outros idiomas somente lendo.
E como é bom "viajar" num livro. O transporte para outros mundos, outras vidas.
O filme aborda o tema com frieza e seu final é contundente. Uma parte da sociedade lendo e decorando um livro, para que a arte de escrever não desapareça. Pode não ser o melhor momento de Truffaud, mas faz refletir e muito.Amo o livro e amei o filme.